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6.5.17

Silêncio - Shusako Endo



Ok, eu sei que já resenhei um livro com o título de “Silêncio”, mas este daqui é outro. Dessa vez a obra é um romance histórico do autor japonês Shusako Endo e para poder resenhar tenho antes que explicar todo o contexto histórico por trás dela.

Contexto histórico
O século XVI é marcado por grandes rupturas, pelas grandes navegações, pela Reforma e Contra-Reforma e etc, nessa mesma época temos o surgimento da Companhia de Jesus, uma ordem que tinha entre uma de suas funções levar a palavra de Deus para as partes mais remotas do mundo que estavam sendo “descobertas”, os jesuítas aturam em diversos continentes e a ordem com seu sistema rígido e hierarquizado cresceu muito rápido em poucos anos, eles possuíam uma intensa troca de cartas que estão disponíveis, nas universidades de Portugal.
Assim como o padre Anchieta conhecido por catequizar os índios no Brasil na segunda metade do século XVI, nessa mesma época São Francisco Xavier, conhecido como o Apóstolo do Oriente, aportou no Japão em 1549, junto com Cosme de Torres e João Fernandez também membros da Companhia, de maneira resumida, é assim que se inicia o processo de evangelização no Japão, lá eles vão se deparar com diversos problemas, linguísticos, culturais e políticos. Mas de maneira geral a situação era boa e promissora, dizem que no auge da catequização o Japão chegou a ter mais de 300 mil japoneses conversos ao cristianismo. Mas no fim do século XVI, Hideyoshi Toyotomi, um dos homens responsáveis pela a unificação do país, volta-se contra aquela religião estrangeira e passa a perseguir os cristãos severamente.
Ok, isso foi uma síntese muito pequena, pois eu poderia ficar horas falando sobre, eu curso história e este é um dos meus temas de pesquisa, mas é o suficiente para a compreensão do livro em questão, vamos para o que interesse agora:

O resumo da obra
Chegou na Companhia de Jesus na Europa a notícia de que o padre Cristovão Ferreira apostatou, ou seja, renegou sua fé ao cristianismo após severa tortura. 
Com isso três de seus discípulos decidem sair da Europa e ir ao Japão. No século XVII em que se passa a história, a perseguição aos padres e aos cristãos japoneses estava em seu auge, se antes  (no XVI) os religiosos lidavam diretamente com os líderes locais, haviam construído igrejas, hospitais e pregavam de determinada forma livre, no tempo do protagonista, o padre Rodrigues, supõe-se que não haviam mais padres no Japão ou que no mínimo estavam bem escondidos, eles decidem ir primeiro para não deixam o rebanho sem orientação e segundo para saber o que se deu com o mestre deles.
No Japão vamos seguir os passos do padre Rodrigues e todo seu percurso, o livro vai tratar questões como fé, e dos vários conflitos internos do protagonista que vai questionar o “silêncio” de Deus para com sua missão. Lá ele vai lidar com os cristãos remanescentes conhecidos como Kakure Kirishistan (cristãos escondidos).

Pontos positivos:
Padre Cristovão realmente existiu e foi um apostata, mas não teve discípulos;
Muitos dos epistolários da Companhia estão disponíveis até mesmo via online, e são fontes extremamente ricas, o autor mesclou em seu livro narração em terceira pessoa, com a simulação de cartas escritas por Rodrigues, o que tornou o livro mais fluído e mostra o esforço do autor de criar algo mais verossímil.
Como estudante de história apaixonada pelo tema, posso afirmar que a descrição do contexto do Japão na época ficou muito boa, pois sim, a população era extremamente pobre como a descrita por Endo e outro questionamento que ele traz é que os japoneses nunca haviam se convertido para o cristianismo de verdade, pois nunca realmente entenderam o que de fato era o cristianismo. Historicamente podemos dizer que um dos fatores que podem ter influenciado nessa situação foram questões linguísticas que muitas vezes possa ter atrapalhado os jesuítas, muitos deles possivelmente nunca conseguiram transmitir o que realmente queriam. Aqui também entra questões de baques culturais e políticos, uma vez que muitos dos senhores de terras se convertiam com puro interesse comercial.
            As vezes para entender uma obra temos que entender sob quais circunstâncias ela foi escrita, o próprio autor é, como já disse, japonês e também cristão. A partir disso podemos entender que sua história não é somente sobre perseguição aos cristãos, mas uma trama profunda, cheia de conflitos internos do personagem que correntemente fica intrigado com o suposto silêncio de seu Deus.

Bônus 01
Trago dois bônus aqui, muitos tendem a crer que o cristianismo não aflorou no Japão, ainda mais que hoje somente 1% da população japonesa é cristã. Mas aqui que está a coisa mais interessante, os japoneses até hoje são conhecido por serem obstinados e orgulhos, e que levam a honra a sério, pois os Kakure kirishitan perduraram por muito mais tempo e além do tempo retratado no livro, pois quando o Japão se abre novamente no século XIX, os holandeses se depararam com japoneses que sabiam quem eram a Nossa Senhora, muitos deles com a restauração Meiji, que permitiu maior liberdade religiosa, vão finalmente poder sair da clandestinidade, alguns deles vão se tornar católicos mesmo, mas outros por exemplo, vão criar as chamadas Novas Religiões Japonesas, que são religiões japonesas que possuem fortes características cristãs.
O filme com o mesmo nome foi lançado neste ano de 2017, com direção de Martin Scorsese. Também neste ano a editora Planeta relançou o livro com a capa do filme e com uma introdução escrita pelo próprio Scorsese, o preço está variando de 22,10 a 25,83.

Bônus 2
A questão do martírio era de vital importância para os cristãos, principalmente para a Companhia de Jesus, que ficou muito marcada por ser a Ordem dos Mártires, o martírio muitas vezes era visto como uma maneira de legitimar mais ainda a religião e usadas como exemplos, sobre este assunto eu também poderia discorrer muito, mas infelizmente isso não é possível. Neste site, podemos conferir que até hoje o martírio é visto de maneira muito importante, e a confirmação de que sim, com a história criada por Endo não é impossível de pensar que possa ter ocorrido coisas semelhantes, pois a Companhia realmente enviou membros para que convertessem novamente o padre Ferreira, mas sobre o que realmente ocorreu com estes e com o próprio Ferreira são suposições. A apostasia era a maior vergonha que poderia existir para os jesuítas que desejavam tanto servirem de mártires.

Bem, não vou dizer isso porque o livro retrata parte do que é minha linha de pesquisa na universidade, mas Silêncio de Shusako Endo entrou para a minha lista de livros favoritos, pois envolve questões de fé e abarca uma das partes menos conhecidas da história do Japão que deveríamos ser mais exploradas não só pela academia, mas também pela literatura. 

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