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3.11.16

O holocausto brasileiro de Daniela Arbex.




Escrever sobre um livro de ficção, parece muito mais fácil, depois de falar sobre fatos que deveriam fazer parte de um livro de terror. Após ler “O holocausto brasileiro”, você sente a necessidade de rever toda a história do Brasil, não apenas por ele mostrar todo horror sofrido por milhares de pessoas ao longo de vários anos, mas por tudo isso ocorrer de maneira sistêmica e de acordo com a lei vigente nesse nosso país.

No prefácio com nome de “Os loucos somos nós”, escrito por Eliane Brum, ela afirma: O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Neste livro, Daniela Arbex devolve nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registrados como Ignorados de Tal.

Entre histórias de sobreviventes, fatos históricos, informações de funcionários e ex-funcionários, Daniela expõe a verdadeira face dos manicômios pelo Brasil, que ao invés de tratar de doenças mentais, produziu uma das maiores atrocidades vistas, ou na verdade, escondidas de todos nós. Corajosamente, a autora demonstrou com fotos e fatos, o que por décadas, foi escondido dos brasileiros.

O nome é muito feliz, ao fazer comparação com uma das mais cruéis atrocidades da humanidade, o holocausto realizado pelos nazistas, contra todos aqueles que não se encaixavam nos seus padrões de aceitação. Mas se observarmos o sentido literal da palavra, vemos que esse nome também pode fazer sentido, pois tratava-se de um sacrifício, praticado pelos antigos hebreus, em que a vítima era inteiramente queimada. No caso do livro, ele retrata o genocídio de 60 mil pessoas, dentro das portas dos manicômios brasileiros.

Para quem pensa, que apenas pessoas com problemas mentais eram enviadas aos manicômios, saibam, que inclusive a polícia tinha o poder de internar pessoas lá. Todos os que eram marginalizados na sociedade, principalmente no estado de Minas Gerais, que é retratado nessa obra, eram enviados para o Barbacena (ou Colônia, como era chamado). Sendo assim, crianças, mulheres grávidas, pessoas com problemas com álcool, indigentes, viciados em drogas e pessoas que eram consideradas doentes mentais, eram enviadas para o esquecimento naqueles muros.

Entre várias histórias, uma mais horripilante que a outra, dignas de um belo livro de terror, está a de Geralda Siqueira Santiago, que foi estuprada aos catorze anos e grávida, foi enviada para o Colônia, onde teve seu filho João Bosco, de quem foi separada por décadas. Órfã de pai e mãe, foi levada por conhecidos para a casa de uma família e ainda criança, começou o trabalho como doméstica nela. Com outras crianças filhas do casal, ela não tinha o mesmo privilégio que eles, de ter uma infância normal e brincar. Foi pelo pai da família, um advogado, que ela foi estuprada dentro do banheiro principal, que tinha o dobro do tamanho de seu quarto sem ventilação. Ela foi levada por duas freiras para Barbacena e lá foi esquecida, junto à diversas mulheres jogadas no chão. Como todos os outros, mesmo grávida, ela tomou sua dose de eletrochoque para amansar.

Ela foi separada de seu filho, assim como outras mães, que deram à luz ali naquele local. Seu filho foi para um orfanato, onde também fazia trabalhos de adultos, como limpar chiqueiros e lá, ele também foi abusado sexualmente, por um dos monitores do abrigo. Aos treze, ele foi para a FEBEM, ainda em MG, lá sua vida tomou outro rumo, hoje ele é um bombeiro e músico da banda da polícia militar.

São diversos relatos como esse, alguns chocantes, outros emocionantes, mas todos, mostram uma cruel realidade vivida no Brasil e que acobertada por instituições federais e até mesmo religiosas, tornou-se uma forma de beneficiar a poucos com a venda de corpos. Isso mesmo, a venda de corpos para universidades, gerou uma forma de girar a economia de poucos administradores, que vendo essa oportunidade de ganho, pouco fez para reverter a situação caótica em que os internos viviam até sua morte.

Recomendo a leitura desse livro, que apresenta reencontros emocionantes, separações de famílias e principalmente, a verdadeira história brasileira dentro dos muros e grades, dos locais que deveriam tratar doenças mentais e ao invés disso, se beneficiavam com o oposto. Espero que todos leiam essa verdadeira obra de Daniela Arbex e que gostem assim como eu gostei!


Um pouco sobre Alessandro Bortoleto Rodrigues:



Bacharel em Desenho Industrial, com habilitação em projeto do produto e pós-graduado em Gerenciamento da Qualidade, possui um livro de ficção pós-apocalíptico lançado pela Chiado Editora, chamado O Terror Depois de Tudo, que em breve estará em todas as livrarias do Brasil e Portugal.




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