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5.10.16

Como escrever diálogos que funcionem


Uma das grandes preocupações de um escritor, quando escreve ficção, deveria ser a construção dos diálogos. Digo isso porque durante todo o tempo em que o personagem é apresentado pela voz do narrador (mesmo que seja uma narração em primeira pessoa), o leitor tem apenas uma noção sobre quem esse personagem é. É apenas quando seu personagem abre a boca e parte para a ação que ele mostra, na prática, quem ele é de verdade.

Assim, tenha em mente que diálogo não é uma conversa entre dois personagens, apenas. Ele tem funções bem definidas - e para funcionar, é preciso que respeite essas funções. Muitos leitores estão cansados de ler diálogos desnecessários em livros. Assim, considere que um diálogo serve para:

1. Caracterizar um personagem;
2. Apresentar a situação;
3. Levar a história para frente (lembre-se: toda história vai do ponto A ao ponto Z).

Se seu diálogo não servir a nenhum dos propósitos acima, é bem possível que ele seja descartável, que possa ser retirado da história. Vejamos:



1. Caracterizando um personagem:


“Aimée mandou um beijo”, ele diz.
Sorrio para ele.
“Eu, sempre atrasada, né?”
Ele se aproxima de mim, beija-me os lábios com suavidade.
“Ela está se alimentando direito, docinho? Ou continua à base de pães e queijos?”
“Tenho certeza de que ela está bem, Lou.”
“Se continuar no ritmo que estava, ela vai voltar de Paris uns dez quilos mais gorda.”
“Fica tranquila, mamãe. Nossa filhinha está bem.”
“Porque não é possível ficar cinco anos estudando por lá e comendo apenas carboidratos e gorduras, é?”

(Andreia Evaristo – Em pele de cordeiro)

No diálogo acima, Marlon e Louise conversam. Podemos perceber que eles são marido e mulher, que têm uma filha juntos, que Louise está sempre atrasada e que nutre uma preocupação demasiada em relação à filha, ou seja, há uma caracterização da personagem. Além disso, podemos perceber que Marlon se preocupa com a esposa, quando ele tenta tranquilizá-la, confortando-a e repetindo: “Fica tranquila, mamãe. Nossa filhinha está bem.”



2. Apresentando a situação:


“Ema?”, chamou junto à porta uma voz meio sussurrada, mas alta o suficiente pra que eu pudesse ouvir e reconhecer.
“Alícia, graças a Deus.”
“O que está acontecendo?” Ela parecia preocupada.
“Não posso contar aqui. O banheiro tá cheio de gente. Escuta, quando o sinal bater, você guarda o meu material?”
“Por quê? Você vai embora?”
“Acho que sim.”
“Tá doente?”
“Não.” Ela não ia parar até ter uma pista. “Coisas de mulher.”
“Ah...” Ela foi pega de surpresa. Com certeza, esperava outra resposta.
“Você pode ir pro pátio, Alícia. Não precisa ficar aqui comigo.”
“Eu não vou deixar você sozinha.”

(Andreia Evaristo – Eita! Deu treta)

No diálogo acima, percebemos a situação em que se encontra Ema: ela está trancada num banheiro, na escola, com um problema sério, que não quer que ninguém na escola fique sabendo. É por isso que ela saiu de sala de aula e não voltou. Ou seja: nesse diálogo entre Ema e Alícia, o leitor conhece a situação em que a personagem está inserida.



3. Levando a história para frente:


– E a mulher ficava lhe dizendo para “buscar e encontrar”?
– Exato. Como das outras vezes. Mas o problema é que eu não tenho a menor ideia do que devo procurar.
Sienna soltou o ar longa e demoradamente; a expressão em seu rosto era grave.
– Talvez eu saiba. E tem mais... acho que talvez você já tenha encontrado.
Langdon se limitou a encará-la.
– Do que você estpa falando?
– Robert, ontem à noite, quando você chegou ao hospital, estava carregando uma coisa estranha no bolso do paletó. Lembra o que era?
Langdon fez que não com a cabeça.
– Estava carregando um objeto... um tanto surpreendente. Eu o encontrei por acaso quando estávamos limpando você. – Ela apontou para o Harris Tweed sujo de sangue estendido em cima da mesa. – Ainda está no bolso, se quiser dar uma olhada.
Langdon lançou um olhar hesitante para o próprio paletó. Pelo menos isso explica por que ela voltou para pegá-lo. Apanhou a roupa e vasculhou todos os bolsos, um por um. Nada. Tornou a procurar. Por fim, virou-se para ela e deu de ombros.
– Não tem nada aqui.
– E no bolso secreto?
– O quê? Meu paletó não tem bolso secreto.
– Ah, não? – Ela parecia intrigada. – Quer dizer que este paletó... é de outra pessoa?
O cérebro de Langdon tornou a ficar confuso.
– Não. É meu.
– Tem certeza?

(Dan Brown – Inferno)

Neste diálogo, Robert Langdon está no hospital com um lapso de memória. A cada fala dele com Sienna, algo da história se desvela, se descobre, ou seja, a história evolui, avança na trama.


Sempre que for planejar seus diálogos, pense numa dessas três funções. Não significa, entretanto, que se seu diálogo não se encaixar em nenhuma delas, que ele precisa ser cortado. Lembre-se: em literatura, toda pergunta que começa com "Eu preciso...?", a resposta é não. Contudo, em tempos de conteúdos multimidiáticos, é importante pensar sobre que tipo de obra você deseja escrever, e como prender a atenção do leitor nas letras do livro.

No próximo post, vou retomar esse assunto de construção de diálogo, e farei 10 dicas de como melhorar os diálogos da sua história.


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