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12.10.16

10 dicas de como melhorar os diálogos da sua história

telefone de lata como escrever dialogos

Como eu já disse no post sobre como construir diálogos que funcionam, os diálogos de um texto são mais do que conversas entre os personagens – eles têm funções bem definidas. Ainda que você preste atenção à função dos diálogos, há algumas coisinhas a mais que precisam de atenção redobrada. Pensando nisso, elaborei esta lista com dez dicas de como melhorar os diálogos na sua história.


1. Equilibre o uso de identificadores


Identificadores são, como o nome sugere, as expressões utilizadas no texto para identificar quem é que está falando. Expressões como “disse João”, “perguntou Maria” e outras do gênero são exemplos de identificadores.

O ideal é que você não use identificadores demais, a ponto de cansar o leitor, nem de menos, a ponto de o leitor não conseguir identificar quem está falando. Encontrar o ponto de equilíbrio não é tão complicado quanto parece.

Num diálogo entre dois personagens, é mais fácil equilibrar o uso de identificadores. Basta identificar o primeiro interlocutor a falar, e as falas serão intercaladas entre os dois personagens.

No trecho a seguir, Ana e seu amante estão conversando. Vejamos:

Ana… Você não tem que se preocupar com nada. Deixe tudo para trás, venha para Innsbruck comigo, eu a protegerei e legitimarei nosso filho.
(...)
— Sabe que amo meus filhos e não os abandonaria.
— Mas que perspectivas tem aqui, Ana? Sabe que seu marido não vai aceitar.
— E que perspectivas eu tenho com você? – Estava tremendo de raiva, e sua voz se alterou tanto que até Joseph deixou de fazer suas tarefas e ficou observando. – Tornar-me uma vadia e expor meu filho à humilhação da sua noiva? Não, obrigado, estou mais segura aqui!
Ana, garanto que Maria não ficará perto de você.
— E ela garante? Não adianta, tudo termina hoje!

Isabela Mião – Adastreia

No diálogo acima, não precisamos de identificadores para saber quando é Ana quem fala e quando é seu amante. Na primeira fala, alguém chama Ana pelo nome, logo, só pode ser seu amante. Se somente os dois estão em cena, a fala a seguir é de Ana, a outra é do amante e assim por diante.

Note: o leitor é inteligente, é capaz de identificar quem é o interlocutor do diálogo apenas com pequenas pistas.

Quando há mais de dois personagens conversando, é preciso mais cuidado ao anunciar ao leitor quem é que está falando. Vejamos:

Encontro-me com Emília e o pessoal da faculdade. O dia está amanhecendo ensolarado, o céu limpinho. Desejo que o ânimo da galera acabe me contagiando de alguma forma.
“E aí, já decidiram para onde vamos?”, Emília pergunta.
“Morro das Pedras”, responde Leon.
“Nunca ouvi falar”, digo.
“É um lugar bacana. Tem um mirante que dá pra ver a praia toda, dizem que é um convento, seminário, alguma coisa assim. A praia é meio deserta...” Leon encara Emília cheio de segundas intenções. Suspiro. Prevejo cheiro de cera queimando sobre minha cabeça, porque eu vou ficar de vela.
Estamos em onze pessoas. Alguns eu conheço de vista, outros nunca vi mais gordos. Duas mãos me se seguram pela cintura, chegando por trás, e um beijo estala em minha bochecha.
“Olá, cosmopolitan.”
“Ah, oi, David. Que susto!”
“Trouxe os ingredientes pra fazer o teu cosmo, gata.”
“Opa! Tô precisando mesmo”, inspiro fundo.
“Epa. Pelo visto, você não costuma chegar muito bem aos fins de semana, né?” Ele pisca um olho, e tem seu charme.
“Não é isso. É só uma fase. Adaptação, eu acho.”
“Lembro de quando eu comecei a primeira fase também. É duro.”
Deixo ele acreditar que seja isso mesmo.

Eva Sartorini – Sugar baby

No texto acima, narrado em primeira pessoa, primeiramente temos três pessoas conversando: Catarina, Emília e Leon. Todos eles precisam estar identificados, já que a conversa rola entre os três. Depois, chega David, que chama Catarina de Cosmopolitan (na história, ele é o único a chamá-la por esse apelido, logo, ela sabe que é ele). Depois, como a conversa gira apenas entre David e Catarina, não é preciso ficar identificando-os.


2. Use verbos de ação para indicar quem fala


Uma estratégia interessante para evitar a repetição do “disse ele”, “disse ela”, é utilizar verbos de ação, demonstrando como os personagens estão interagindo, no meio das falas, como podemos ver no texto acima (de Sugar baby), “ele pisca um olho, e tem seu charme” ou em “Leon encara Emília cheio de segundas intenções.” O texto fica mais rico e menos repetitivo.


3.  Evite didatismo


É um erro muito comum do escritor iniciante querer demonstrar com a fala dos seus personagens as informações que ele (escritor) pesquisou para sua história. Mas, a menos que seu personagem seja um professor ou um palestrante, não faça isso. Soa falso, forçado – a menos que você queira construir uma cena cômica, que não precise ser lavada a sério.

Há uma exceção para esses diálogos de “ensinar alguma coisa.” Em livros de fantasia, onde o universo da história é muito diferente, se algum personagem migrar do mundo comum (o nosso) para o mundo fantasioso, ele pode ter dúvidas e contar com o guia, um mentor, que lhe explique como as coisas funcionam. É o que acontece quando Harry Potter vai a Hogwarts e Hermione e Rony lhe explicam algumas coisas.


4. Evite as banalidades


Diálogos são conversas, mas não são só isso. Se ficarmos de olho na função dos diálogos, saberemos como evitar as banalidades, coisas que costumam acontecer no dia-a-dia, mas que não fazem diferença alguma no andamento da história.

Assim, diálogos como:
– Oi.
– Oi, tudo bem?
– Tudo, e você?
– Tudo bem, também.
devem ser evitados, porque só servem para encher linguiça. A menos que haja alguma característica do personagem a ser ressaltada nesse tipo de banalidade, evite-a em seus textos.

Ela caminha pelo pátio com os amigos, em direção ao portão da saída, rindo espontaneamente. Tão espontânea quanto naquela noite, naquele baile em que a conheci. Ela sorri, e é como se o mundo se tornasse mais livre, o sol brilhasse mais. Sorrio com a cena. Ela me vê, se despede dos colegas e saltita em minha direção.
“Olá, Lobo mau”, brinca.
Ela se joga em meus braços, me enche de beijos, e eu sorrio. Sou outro homem com a presença dela em minha vida.

Andreia Evaristo – Em pele de cordeiro

Na cena acima, o cumprimento de Louise para Aurélio Lobo quando o encontra tem o objetivo de caracterizar ambos os personagens: Louise é uma menina alegre, que gosta de brincar com o namorado, fazendo trocadilho do seu sobrenome com o personagem dos livros infantis. Chamá-lo de “Lobo mau” também serve para reforçar a diferença de idade entre ele e ela, já que Lobo é um homem adulto, enquanto Louise ainda é uma adolescente.


5. Use travessões ou aspas


Há duas formas básicas de marcar a fala de seus personagens: usando travessões (a forma mais comum no Brasil) ou usando aspas (a forma mais comum nos Estados Unidos). A escolha entre um e outro é totalmente particular e pessoal, sendo ambas as formas consideradas corretas.

Independente da forma que você escolha para marcar a fala dos seus personagens, lembre-se de que a fala do narrador precisa ser separada da fala do personagem usando o mesmo sinal gráfico que você escolheu, sejam travessões, sejam aspas.

“Eu vou cair na água”, anuncia Evelin, já tirando o shortinho e expondo sua feminilidade. Ela está muito bronzeada: seu biquíni de lacinho deixa à mostra uma marca de outro conjunto, contrastando branca no corpo moreno. Ela prende os cabelos longos e com as pontas desbotadas num coque frouxo no topo da cabeça e convida: “Bora, David?”

Eva Sartorini – Sugar baby

O trecho em vermelho marca uma longa descrição feita pela narradora da história – e está fora das aspas, que constituem a fala de Evelin. Quando Evelin volta a falar, sua fala aparece novamente entre aspas.

– E que perspectivas eu tenho com você? – Estava tremendo de raiva, e sua voz se alterou tanto que até Joseph deixou de fazer suas tarefas e ficou observando. – Tornar-me uma vadia e expor meu filho à humilhação da sua noiva? Não, obrigado, estou mais segura aqui!

Isabela Mião – Adastreia

O mesmo vale para o trecho acima, que usa travessões em vez de aspas. O trecho em vermelho é a fala do narrador. Note: quando o narrador entra, há um travessão antes dele; quando a mesma personagem volta a falar, há um novo travessão, ou seja, o narrador é separado da fala no diálogo por um travessão antes e outro depois.

Outro ponto a prestar atenção: abrir um novo parágrafo com travessões ou aspas indica que outro personagem está falando. Se a fala for do mesmo personagem, mesmo que ela continue após a fala do narrador, ela deve vir no mesmo parágrafo.

“Eu devia ter trazido minha prancha.” Evelin enxuga o rosto molhado. “Olha esse mar, cara.”
Aos poucos, o povo vai voltando para o local onde estamos. Os caras abrem a caixa térmica e escuto o barulhinho de latinhas se abrindo: sssshhhhh, clect.
“Quer uma cerveja, Catarina?”, me oferece um deles.
“Não, obrigada. Pode me chamar de Nina.” Dou uma piscadinha em sua direção.
“Ela prefere bebidas doces, Mir.” David me olha e sorri meio de lado. “Vai um cosmo?”
“Se você estiver disposto a fazer, eu juro que não vou recusar.”

Eva Sartorini – Sugar baby

Mesmo quando o narrador interrompe a fala do personagem no meio, a fala precisa continuar no mesmo parágrafo. Na primeira fala desse trecho, se a frase “Olha esse mar, cara” estivesse num novo parágrafo, a impressão que o leitor teria era de se tratar da fala de outro personagem, não de Evelin. Esse é um erro muito comum em alguns livros, justamente porque a fala do narrador interrompe a fala do personagem.

(Tenho um post sobre o uso das vírgulas nos diálogos, também. É só clicar aqui).


6. Atribua vícios de linguagem aos seus personagens


Não, eu não estou dizendo que você precisa escrever fora da norma padrão só por se tratar de uma fala (embora você possa fazer isso, se quiser – principalmente se estiver escrevendo uma história regionalista). Mas lembre-se de seus amigos, das pessoas com quem você conversa – ou de sua própria fala: muitas pessoas possuem traços próprios em sua linguagem. Tem gente que tem mania de “né?” ou “tá?”. Tem gente que chama todo mundo de “querido” ou “querida”. Tem gente que vive citando frases de livros, ou fazendo referências à cultura pop. Se você conseguir atribuir características peculiares à fala de seus personagens, toda vez que ele abrir a boca para falar, não precisará nem de identificadores: o leitor já saberá quem é só pelo modo de falar.


7. Sem essa de monólogo a dois


Diálogos mais interessantes são aqueles que contribuem para o andamento da história. Assim, se todas as vezes que seu personagem aparecer conversando com outro, eles concordarem em tudo, os diálogos ficarão chatos demais e o leitor pode até desistir da sua história.

Coloque confronto em seus diálogos. Faça seu personagem debater, argumentar, questionar. Construa brigas. Tudo, menos essa coisa certinha de “eu falo, você concorda.”


8. Vou te contar meu plano maligno


Há um clichê nas histórias com vilões, quando o vilão prendeu o herói ou a vítima e começa a contar todo seu plano maligno e suas motivações, os porquês de estar fazendo aquilo tudo. Sempre que possível, tente fugir dessa estratégia. Dessa forma, o vilão está “contando” a história, em vez de “mostrá-la” – e mostrar uma história em vez de contá-la é uma das primeiras regras de ouro que um escritor deveria aprender.

O mesmo vale para as histórias pregressas da vida do seu personagem: evite fazê-lo contar seu passado, seus traumas, seu problemas anteriores num diálogo. Se quiser, coloque o narrador fazendo isso – mas se houver muita coisa a ser resgatada do passado, não seria mais interessante produzir um flashback? Lembre-se: cenas de ação mostram uma história; diálogos contam.


9. Busque sempre a fala natural


Seu narrador pode tem uma linguagem mais formal, mais rebuscada, com palavras pouco usuais. Mas pense nas pessoas que você conhece e em sua forma de falar? Dificilmente uma pessoa utiliza rebuscamento em sua linguagem falada. Assim, sempre que possível, construa diálogos utilizando a fala cotidiana, coloquial. Pode até mesmo fazer uso de gírias e vícios de linguagem, e fugir um pouco do que dita a norma padrão – isso dá veracidade ao seu texto.


10. Cuidado com dialetos muito específicos


Se seu personagem mora numa favela, faz parte de uma gangue, é natural que ele tenha alguns traços na linguagem que o diferenciem da língua padrão. Contudo, se você construir toda a fala do personagem num dialeto específico, talvez o leitor não consiga compreender o que você quer dizer. O mesmo vale para as gírias: utilizá-las é ótimo para que seu personagem possa ser caracterizado, mas seu excesso pode prejudicar o entendimento.

Outra coisa a se pensar nessa questão dos dialetos: um médico tem o mesmo linguajar de um traficante? Um professor universitário tem o mesmo linguajar que o aluno do jardim de infância? Os homens usam as mesmas falas que as mulheres? Pessoas que vivem em 2016 usam as mesmas palavras que as pessoas que viveram na década de 1970? Pense nisso na hora de fazer seu personagem abrir a boca e ganhar vida.

É possível que existam mais questões, ainda, a serem trabalhadas dentro do tema diálogos, mas com essas dicas já é possível construir conversas mais consistentes, mais verossimilhantes e mais interessantes ao leitor.


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