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24.9.16

DOSTOIEVSKI 2# ESCREVA COMO OS MESTRES - TRANSIÇÕES DE CENA


Transições são outro artifício que Dostoiévski faz com sofisticação. De fato, é algo que todos os autores deveriam saber; entretanto, embora muito tempo tenha se passado desde então, pouco se evoluiu tal técnica; na verdade, a maioria dos escritores contemporâneos fazem um trabalho mal feito. Dostoiévski é rápido, eficiente, quase cinematográfico em cortar de cena em cena. Mas também possui um segredo, qual é o que garante a suavidade de suas transições.
Consideremos um exemplo de tal segredo num de seus primeiros trabalhos. O fato dele usar tal técnica tão cedo, além de continuar usando-a por toda sua carreira, nos denuncia a sua importância e utilidade. Em Memórias do Subsolo (1864) um dos capítulos finda-se com o anti-herói tomando um ônibus até um hotel, onde haverá uma festa. A transição no início do capítulo seguinte é rapidamente esboçada a nós.

Eu sabia com antecedência que poderia ser o primeiro. Mas agora já não era essa a questão que importava. ”

“Não havia ninguém lá, além de que também tive dificuldade em achar nosso quarto. ”

O corte é feito de forma eficiente porque não há excesso verbal. Estamos simplesmente num outro lugar. Mas ainda mais importante, Dostoiévski nos leva até lá através da consciência do narrador, fazendo com que nós inauguremos o lugar, tanto através de uma descrição física, que a ver é mínima, quanto pelo significado emocional de estar lá. De fato, o uso das emoções que faz Dostoiévski, é uma sofisticada técnica que a maioria dos escritores atuais nunca usam porquanto a desconhecem.
Olhemos um outro exemplo. A mesma técnica é usada em Os Irmãos Karamazov (1880). No capítulo primeiro do segundo livro, ficamos sabendo da chegada de Pyotr Miusov e de Pyotr Kalganov em um novo lugar. Dostoiévski tem um dos homens, ao chegar lá, a refletir sobre sua entrada na universidade. O outro, por sua vez, chega mais tarde. As duas transições são feitas de forma que nos impulsione a uma nova localização através da bagagem emocional que traz os homens consigo: indecisão e atraso. Não nos é dito simplesmente que estamos num cenário novo; pelo contrário, somos injetados nesse cenário pelos sentimentos dos dois personagens.
Um exemplo ainda mais brilhante do autor em suas transições ocorre no final de O Idiota (1868) quando o Príncipe Myshkin chega na casa onde ele encontra, a seguir, a mulher que ama assassinada.

“A cerca de cinquenta passos do hotel, à primeira esquina, alguém da multidão, de súbito, tocou seu cotovelo, dizendo-lhe numa voz miúda, no rumo do ouvido:
– Lev Nikolayevitch, siga-me, irmão. Vem comigo.
Era Rogozhin”.

Então Dostoiévski aplica a transição: O príncipe, afundado num humor jovial, quando vê a mulher assassinada, a mudança de suas emoções é chocante.

“Curiosamente resoluto, o príncipe pôs-se a conta-lo – balbuciando, mal pronunciando as palavras por inteiro – como esperou para vê-lo ali, no corredor do hotel”.

Num piscar de olhos, a cena é mudada, e o príncipe não está mais só; arrancado para fora da multidão, por assim dizer, pelo assassino, o príncipe se mostra num bom humor. Tal transição, com a emoção do príncipe a destacar-se, joga-nos dentro da cena numa explosão onde o príncipe está a perder a cabeça.

Para usar tal técnica, ignore o trabalho do qual a maioria dos escritores modernos põe-se a fazer, simplesmente mudando de localidade. Eles podem até faze-lo de forme eficiente, mas Dostoiévski adiciona uma reviravolta que arrebata os leitores para dentro do texto. Lembre-se, antes de tudo, faça suas transições de forma rápida. Então adicione algum elemento emocional, preferivelmente através do ponto de vista de determinado personagem. Tal abordagem garante-lhe transições efetivas. É possível alcançar mais que uma admirável e cinemática rapidez à medida que o autor corta de um lugar para o outro, mantendo também os leitores envolvidos, porquanto todos respondem por emoções – muito mais do que mera descrição. Como resultado desses dois passos, transições serão o elo de ligação às cenas de maior impacto, raramente encontrado na ficção moderna. É possível adicionar também a reversão de uma emoção, ao passo que a transição é feita.

***

Texto extraído, e traduzido por mim, do quarto capítulo do livro 
Write Like the Masters: emulating the best of Hemingway, Faulkner, Salinger, and others
do autor William Cane.
Também os trechos dos livros, que servem de exemplo, foram por mim traduzidos, não condizendo talvez com as traduções em mercado que existem no Brasil.

Que os créditos sejam devidamente dados.

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