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13.8.16

PERSONAGENS: CONFLITOS INTERNOS E A FILOSOFIA DO EXISTENCIALISMO EM SUA CRIAÇÃO



Se a pergunta de como criar bons personagens atormenta-te, leitor, eis a mais simples e superficial resposta: crie conflitos. 
Na verdade, qualquer um que conte uma história sabe muito bem que esse é o cerne da coisa toda. Não existe graça alguma entre duas pessoas felizes e harmoniosas, ou um diálogo onde tudo resulta-se na concordância. Conflito é o que faz uma história ser interessante; é como a vida, sem os marasmos da vida, é pimenta nos olhos dos outros, o desejo contraditório de viver e não viver daquela forma, na pele daquele personagem... 
Personagem... 
E quanto aos personagens?! Se conflitos são construídos entre duas pessoas, duas ideologias, duas opiniões opostas, entre o mundo e a humanidade, o que nos resta em nós mesmo a combater?  
Assim são os conflitos internos. Uma rixa entre você e você, entre o que é, e o que quer ser, ou o que já foi e o que nunca será.  


Aos personagens... 

Não é difícil perceber o desprezo de alguns autores contemporâneos quanto aos personagens. Com isso, digo, o foco absurdo numa trama, nos acontecimentos externos, em desafios, jornadas, e o desleixo da construção realista e sentimental de um personagem.  
Vejo muito isso, principalmente, em livros de fantasia, onde os feitos são heroicos, o mundo é grandioso, as aventuras são épicas, mas os personagens...nem tanto. A contrastar com obras, diríamos, realistas de tempos atrás, de grande influência existencialista, no qual, tratando a vida e a relação interpessoal como principal ponto a discutir-se numa história, tendo antes de tudo um argumento como justificativa, foca em pequenos detalhes, em pequenas ações, em pequenos mundos de solidão, desenterrando lentamente com as mãos o que parece insignificante. 

Por isso personagens como Brás Cubas, do Machado de Assis, se encontram tão próximos do leitor, na pequeneza que aparentam suas ações, e na grandiosidade do efeito implícito e da causa. Porém, a vir de mim, não passa de mera especulação. É o que me dizem os mais velhos, os mais experientes de vida, embora eu tenha também sido instigado.  
Por isso que, talvez, sejam esses livros mais chatos aos jovens, contagiados pela emoção de uma guerra medieval. A vida não é nada para eles, além de uma estrada de prazeres, sem pedras nem buracos. Claro, existem conflitosna mente de um jovem. Mas quem é que não olha para o passado, e vendo a si mesmo reclamar de todas as "grandes preocupações da juventude" não para e diz, "você não sabe o que é preocupação, de verdade".  Assim, o mesmo nunca entenderia a tristeza da solidão que reflete nas páginas e nos longos monólogos de Memorial de Aires. Nem mesmo o Machado entenderia, se não estivesse só, ao escreve-lo, sem a mulher.  

Não que seja a ficção, fantasia, YA, ou qualquer livro sem algum argumento, ou filosofia em suas entrelinhas, vazia. Não mesmo. Porém, é menos que mero entretenimento. E não julgue o meu "mero". Toda arte é demasiada inútil, como já dizia Oscar Wilde.  


Como construir personagens? 

Antes de tudo, o grande erro é defini-los como são. Isso mesmo. É um erro imaginar como eles são, embora seja uma fase inegável do processo de concebe-los. Acontece que não é assim que as pessoas são, e, partindo do princípio de que o autor deveria fazer seus personagens pularem da página, não é assim que se constrói um realismo.  
Pense num bolo. Ao fazermos o bolo, seguimos uma receita. Caso eu retrate uma cena em que os personagens fazem um bolo, eles precisam, também, seguirem uma receita, seja ela explícita ou não no texto. Não existe bolo saindo do nada. Isso não seria realista.  
Pois bem, e o que isso tem haver em conceber e definir como são os personagens?  
Entenda que, partindo de um certo existencialismo, a existência precede a essência.  
Ficou confuso? Para o existencialismo o homem que molda sua essência, ele que dá significado à si mesmo, e à vida, porque os mesmos não "são" antes de sua própria existência.  
O mesmo se dá aos personagens. Dê-lhes liberdade.  
Love this guy:
O homem nada mais é do que ele faz si mesmo
- Jean Paul Sartre


Pense num livro. Nesse caso, a essência precede a existência. Primeiro o autor concebe a ideia, a essência do livro, e depois trata de escreve-lo, trata de dar vida à ideia, de suscitar sua existência. Porém, com o homem é diferente. Mesmo que você acredite ou não em Deus, é fato de que somos livres. Na pior, ou melhor, das hipóteses, condenados à liberdade. Se Deus nos criou, não planejou uma essência, mas deu-nos a caneta e o papel para escrever a mesma, assim como seu pai ou sua mãe também não desenharam suas características psicológicas, nem o seu propósito de vida, ou os significados que representam, para você, o meio externo. 


Não diga, "Maria vai ser a sabichona, Pedro o brincalhão, e João, o mocinho". Não! Assim você está tratando pessoas como se tratasse um livro, com a essência a preceder a existência. Em vez disso, pense, não como são, mas como se tornaram; eis a chave da questão: passado. 

É inegável que todos nós imaginamos nosso personagens em suas características dominantes, como a de Maria, de Pedro e de João. Mas tente esquecer que isso ocorreu, e tente não seguir a risca o que planejou; apenas escreva e dê a vida; deixe-os livres para serem o que quiserem 
Brandon Sanderson costuma planejar seus livros partindo dos grandes acontecimentos. No caso, ele escreve numa folha, "fulano morre", "o senhor das trevas é derrotado", etc. E entre as lacunas, vai construindo pontes. O que terá que acontecer para que "fulano morra"?  

Podemos aplicar o mesmo conceito aos personagens: escreva as características principais, a essência que você planejou, o livre arbítrio que roubou de suas criaturas, e depois escreva as pontes, os caminhos do passado que levaram o personagem a ser assim. Garanto-te que, se deixa-lo fluir, ao final, ele será totalmente diferente do que planejara. 
Lembre-se, tudo o que somo é reflexo do nosso passado, de nossos traumas, vergonhas, paixões, instintos, etc. E isso realmente possui grande peso.  


Sentimentos como impulso para ações e motivações 

Como argumento de como o passado reflete o futuro, e a construção do ser através da experiência, eis um caso muito peculiar, até muito presente nas obras do Dosteiévsky: A culpa inconsciente.  
Freud, uma vez, tratou de um caso clínico, onde uma jovem sofria de auto acusações obsessivas, se culpando de tudo que via nas notícias do jornal e tal, sem nem mesmo ter cometido nada daquilo, tudo de forma inteiramente inconsciente. 
Segundo o psicanalista, a origem dessa culpa se encontrava na pratica excessiva da masturbação por parte da jovem, o que lhe garantia tamanha vergonha de si mesma, a ponto de culpar-se de outros casos com solução de preencher a não aceitação dos próprios atos.  

A mesma coisa acontece com Raskólnikov, de Crime e Castigo, onde, este, o protagonista, a sentir vergonha de si mesmo quanto ao sentimento incestuoso que nutria pela sua irmã Dúnia ao qual inclusive se mostrou seu maior impulso a cometer o crime que cometeu, se vê, unicamente, capaz de se relacionar com uma prostituta, Sônia, o completo oposto da irmã.  


Conclusão... 

Personagens reais deveriam ser o maior objetivo de um escritor competente. Não é preciso tantas artimanhas, nem mesmo longas horas rascunhando e planejando-os. Mas apenas, o dom de faze-los livres, e entender que a existência precede a essência, porque são eles que se constroem, não nós. Apenas observe as nuances que a vida lhe revela. Um simples gosto musical, uma pequena mania, pode revelar muito mais do que se imagina sobre uma pessoa. Então deixe-os viver. 
Nós escritores, nada criamos; somos apenas, meros registradores de acontecimentos. 

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