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24.8.16

George R. R. Martin: o escritor jardineiro e o escritor arquiteto

Quando você tem uma grande ideia, como faz para começar a transformá-la num livro?




“Existem dois tipos de escritores: os arquitetos e os jardineiros. Os arquitetos começam suas obras tendo cada detalhe planejado, enquanto os jardineiros apenas plantam e aparam as coisas à medida que elas vão crescendo sozinhas. Eu sou um jardineiro.” (George R. R. Martin)


Basicamente, como muito bem definiu Martin, existem dois tipos de escritor: o jardineiro e o arquiteto.


1. Escritor jardineiro

É o rei do improviso. Ele tem uma ideia na cabeça que lhe parece genial. Então, ele determina os personagens da sua história (é fundamental construir personagens sólidos antes de começar a escrever, para que o escritor leitor não confunda Maria com Maricota) e um ponto de partida. E só. A partir daí, senta na frente do computador (ou da máquina de escrever, ou de um papel em branco) e coloca a imaginação para funcionar.

Vantagens:

* A imaginação flui mais solta: o escritor se sente livre para mudar o curso da história conforme seu humor, conforme os personagens vão se desvelando na trama. Não existe uma pressão para que a história tome este ou aquele rumo: não há um rumo pré-determinado.

* É mais fácil ouvir a voz dos personagens: não, eu não estou maluca. Se você se disciplinar a escrever sua história com frequência (todos osdias seria o ideal), aos poucos vai perceber que os personagens o cercam de todas as formas – em seus pensamentos, na hora de lavar a louça, durante o banho, em seus sonhos... Ou seja, seus personagens começam a falar com você. Como não há uma linha prévia a ser seguida, seus personagens podem determinar o rumo que preferem que a história tome – o que, muitas vezes, pode significar boas reviravoltas na trama.

* Surpresas: se você é do tipo que gosta de se surpreender, talvez esse seja o seu estilo de escrita. Como a história pode tomar qualquer rumo, o escritor pode ser surpreendido pelo fim da história.

Desvantagens:

* Bloqueio criativo: ficar pensando no que escrever a seguir pode bloquear a fluidez da sua escrita. O mesmo vale para a escolha de nomes de cidades, sobrenomes de personagens, decisões conflitantes...

* Resultado insatisfatório: quando o personagem não tem uma meta clara estabelecida, ele pode ir para qualquer lugar, certo? Mas “qualquer lugar” nem sempre é um bom lugar. Isso é um problema porque sem um ponto para nortear sua história, alguns escritores não conseguem amarrar todas as pontas dos conflitos que foram abertos, o que pode frustrar o leitor ou o próprio escritor.

* Já terminou?: não apenas os conflitos podem ficar com uma solução simplória (como deus ex-machina, por exemplo), mas também a história pode parecer não ter terminado. Sem saber para onde conduzir a história, o escritor pode não conseguir finalizar o que começou, e o leitor vai ficar se perguntando se o livro terá uma parte 2, uma sequência... (não porque a história seja boa a ponto de merecer continuar, mas porque ele ficou com a sensação de que faltou alguma coisa).



2. Escritor arquiteto

Diferente do jardineiro, o escritor arquiteto é mestre em planejar. Ele determina os personagens, elege o protagonista, determina seu arco de personagem. Depois, estrutura a história com começo, meio e fim (pode se basear em estruturas já conhecidas, como a jornada do herói, ou o paradigma de Syd Field, por exemplo). Além disso, divide cada um dos atos da sua história em cenas resumidas (sumários), encaixando-as num documento ou num quadro, com a função definida de cada capítulo/cena. Ele tem um trabalho enorme antes de começar a primeira palavra da primeira página, mas sabe que, tendo a história toda organizada, tudo vai fluir da melhor maneira possível.

Vantagens:

* Fim do bloqueio: se você conhece sua história de cabo a rabo, não tem como ficar empacado no meio dela, concorda comigo? Você não vai precisar parar para pensar em nomes de personagens e cidades, ou nas decisões do seu personagem: elas já foram tomadas antes – e todas elas têm um motivo específico para acontecer.

* Metas claras e fáceis de serem batidas: como sua história está toda esquematizada, com número de capítulos e cenas, fica mais fácil estipular metas de escrita. Se você escreve todos os dias uma média de 2.000 palavras por dia, e seus capítulos estão ficando com um número determinado de palavras, você pode saber mais ou menos quando vai finalizar o último capítulo.

* Grande público feliz: se seu objetivo como escritor é agradar ao maior número de leitores, e você dominar as regras de escrita (estrutura, capítulo, fábulas, arco de personagem, curva de conflito etc.), fica mais fácil produzir um texto de maior aceitação do público quando todos esses elementos são planejados. Sua obra pode até conter uma série de clichês e pouca inovação, mas se o objetivo é ser comercial, é melhor planejar cada cena com cuidado.

Desvantagens:

* Quero pegar um atalho: você determinou que hoje sua personagem vai trocar confidências com um amigo. Mas a personagem insiste em seus ouvidos que ela não quer apenas conversa: ela quer trocar uns amassos com seu interlocutor. E aí? O que você faz? Segue todo o seu roteiro, tão bonitinho e estruturado, ou dá ouvidos à personagem, mesmo que isso signifique precisar alterar todo o roteiro dessa cena em diante? Escritores arquitetos têm problemas em fugir do planejamento inicial e podem perder grandes surpresas durante a escrita.

* Sinto-me numa prisão: essa pressão de manter-se dentro do planejado simplesmente não funciona para alguns escritores. Eles se sentem aprisionados, com sua liberdade criativa tolhida, amarrada e amordaçada no fundo de um calabouço. Se seguir um roteiro angustia você, essa não é a melhor estratégia.


Mas e você, Andreia, como faz?

Meu primeiro livro desde que voltei a escrever (não publicado ainda) foi feito totalmente como uma jardineira. Eu tinha uma ideia do que queria fazer, meus personagens eram todos avatares (inspirados em pessoas que eu já conheci) e tinha algumas cenas em mente. Mas não sabia nada além disso. Então, fui semeando as ideias para ver no que daria.

Funcionou?

Sim. What’s up ganhou o quarto lugar num concurso nacional de literatura (mas não vai ser publicado, porque o instituto que o premiou acabou sendo fechado #malditacrise). A escrita é fluida, os personagens agem como pessoas reais e os conflitos surgem e se resolvem (ou não) de uma forma bastante natural.

Porém, depois de escrever What’s up, eu voltei a estudar teoria literária, com foco principal em escrita criativa. Isso me fez experimentar escrever como uma arquiteta. Minha primeira tentativa foi usando a jornada do herói. Depois, mesclei a jornada do herói com o paradigma de Syd Field. Por fim, no meu próximo projeto, quero unir ainda a estrutura das cinco fábulas de Aristóteles.

Hoje eu percebo que, quanto mais eu estudo, mais alternativas eu tenho para usar a meu favor, na escrita, ou para descartar. Até para recusar alguma coisa, é necessário conhecer, experimentar. Assim, hoje em dia, eu prefiro ter uma estrutura definida, com cenas delimitadas. Mas, se acontecer de um personagem querer fugir do roteiro, eu escrevo a cena que está pulsando com o personagem e depois escrevo a cena que tinha planejado no roteiro. Por fim, acabo mantendo aquela que eu achar que ficou melhor. Isso ajuda a não podar minha imaginação.

Provalvemente, mais para frente, vou esmiuçar melhor cada uma dessas estruturas que citei neste post. Só quero deixar uma dica final: independente do que você estudar, do que decidir para sua escrita e sua prática, não deixe que nenhuma forma de escrever se torne uma fórmula. Não há receitas de bolo quando estamos falando de literatura. Nada é obrigatório. Nada é proibido.

Dúvidas? Dicas? Sugestões? Comenta comigo aqui embaixo.

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4 comments :

  1. Oi! Gostaria de saber como voc~e estuda teoria literária. Faz ou fez algum curso? Tem dicas de autores? Por favor me ajude kkkkk beijão!

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    1. Oi, Aleska
      Sou formada em Letras, então, alguns teóricos da área já são conhecidos desde a faculdade...
      Mas ultimamente tenho, sim, feito alguns cursos, e lido muitos livros.
      Os melhores cursos que fiz ultimamente foram com o escritor best-seller André Vianco (do site Vivendo de Inventar). São dicas pontuais e práticas para quem quer escrever de uma forma mais comercial, com o objetivo de alcançar mais leitores.
      Já livros posso te indicar alguns: A jornada do Escritor, O herói de mil faces, Para ler como um escritor, A poética (de Aristóteles)... Há muito material disponível, desde que você tenha tempo.
      Ah, se quiser também, eu tenho algumas dicas no meu blog pessoal (www.qualquersentido.com) e aqui, mesmo, na Armada, tem dicas preciosas.
      Espero ter ajudado.
      Beijo.

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  2. Acredito que sou jardineiro :) . Não consigo seguir escrevendo quando faço um planejamento detalhado da história. Deixo a escrita me levar.

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    1. Sei bem como é. hehehhe
      E tem funcionado bem pra você? Suas histórias fluem? Não há bloqueios?

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