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16.7.16

MOSTRAR VS CONTAR \ SHOW VS TELL


   Com o advento dos filmes, séries e todo o conteúdo audiovisual suscitado no século anterior, os livros não ficaram fora de impacto causado nas concepções artísticas de desenvolvimento de uma história e sua forma de produzi-la. Na verdade, a literatura mudou muito desde que as telas se apropriaram do patamar mais popular de conta-las.
  
   Mostrar e Contar: muita gente já deve ter ouvido isso, mas pode não ter compreendido a coisa toda (inclusive você leitor, presumo).
   Sejamos breves:


Contar e Mostrar

   É importante uma observação quanto ao que vou tratar aqui. A grande dica é: mostre, em vez de contar. Mas isso não significa, de jeito algum, que seja uma regra, uma formula para a perfeição, ou um guia de como evitar o desastre.
   Bem, primeiramente, contar é o que fazem os contos. São breves, diretos e secos. Informam, contam:

Pedro estava muito ansioso antes da prova.

   Mostrar, por outro lado, não passa a informação, mas mostra. Não há explicação, não há o explícito, mas o implícito, não há terra seca, mas um mar escuro, e no fundo, o sentido. Como assim? Pense numa reportagem de televisão. Existem as imagens que se passam na tela, e ao fundo, a voz da jornalista. As imagens mostram, a voz conta. Simples assim.
   Confuso? Vamos a outro exemplo. Imagine um filme. As cenas são contadas ou mostradas? Imagine Pedro ansioso antes da prova. Por ventura, há um narrador no filme, dizendo Pedro estava muito ansioso antes da prova? Acho que não. Então o que há? Há, simplesmente, Pedro tremendo os joelhos, andando feito um manco, escorrendo suor por sua testa, correndo a vista por todos os lados, etc. Isso é mostrar:

As paredes da sala pareciam intimida-lo ao conforto ilusório de um sonho, instigando seus joelhos a se comportarem feito loucos histéricos, ou amantes apaixonados em busca de um caminho a transpassar contato. O suor lhe escorria pela testa à medida que os passos da professora ecoavam em uníssono ao farfalhar das folhas demoníacas diante os ventiladores do corredor, a alimentar a euforia de sua vista, correndo pelos ângulos do teto, a seguir em contraste às linhas imaginárias de delírio. A contagem das cerâmicas presas ao chão induzia-o ao inconsciente questionamento de medidas que o quadro negro exalava como cheiro, o cheiro do temido teorema sem sentido, quando a porta enfim se abriu, num orgasmo de desprezo.
“Como odeio provas de matemática!”, sussurrou Pedro, consigo mesmo.

   Aqui, o texto mostra, em vez de contar. Em momento algum usei a palavra ansioso, a qual é o centro da outra oração. Mas mostrei isso, nos joelhos a se comportarem feito loucos histéricos, ou amantes apaixonados em busca de um caminho a transpassar contato, no suor lhe escorria pela testa, ou a alimentar a euforia de sua vista, correndo pelos ângulos do teto, a seguir em contraste às linhas imaginárias de delírio, além de também mostrar, por exemplo, que Pedro se encontrava na sala de aula, à espera da professora; e de que a prova era de matemática: "Como odeio provas de matemática!”, sussurrou Pedro, consigo mesmo.
   O diálogo pode ser uma boa arma de mostrar as coisas, sem contar, também as figuras de linguagem que tratei de usar aos montes, já que tento expressar uma sensação, um sentimento. Não há no texto, algo como, a prova era de matemática, ou Pedro odiava provas de matemática. Porque o que tentei demonstrar na cabeça do leitor foi um filme. O filme não vai lhe dizer essas coisas, vai te mostrar essas coisas.
   Um outro exemplo que vi, numa aula do Brandon Sanderson (autor de Mistborn, Elantris, e dos últimos livros d'A Roda do Tempo) no Youtube (Write About Dragons), foi esse:

“Ah! Eu odeio ruivas!”

   O que isso diz? Ou melhor, o que isso mostra? Vamos contextualiza-lo:

Susana, ao longe, se dirigia até mim, empertigada, aos passos firmes e rápidos.
“Ah! Como eu odeio ruivas!”, disse eu à Maria, que, se entretinha com o celular. “Vamos embora!”.

   Perceba que, não precisei dizer que eu odiava, ou no mínimo achava chata, a tal da Susana. Também, não disse que Susana era ruiva, ou esnobe (empertigada), eu mostrei isso, na cena em que, a protagonista, vendo uma pessoa da qual não gosta muito se aproximar, a xinga para a amiga ao lado, Maria, indo embora, na tentativa de evitar Susana.
   Economizei descrições inúteis, com demonstrações. Agora imagine isso num filme; seria fácil “transpor”, pois nada se omitiria.
   Vamos fazer ao contrário, então:

Susana, ao longe, se dirigia até mim, aos passos firmes e rápidos. Seus cabelos eram vermelhos, soltos, exuberantes, e eu os odiava tanto quanto a sua personalidade esnobe. Maria, ao meu lado, se distraía com o celular, quando vi que precisava evitar que aquela garota enchesse o nosso saco.
“Vamos embora, Maria!”, disse a ela.

   Como pode ver, não há defeito em contar. Todo mundo faz isso, até o Machado de Assis (perdoem-o, não havia filmes). Porém a escrita se torna rica quando contada, se torna um diamante esculpido.
   Mas saiba que, nunca...nunca mesmo, você poderá sempre deixar de contar para mostrar. Existem casos que se torna impossível. Então, pelo menos, tente mostrar; apenas tente.

Quando CONTAR?

   Você pode contar a hora que quiser, depende muito de seu estilo. Mas, mais especificamente, as histórias são contadas em sumários narrativos, a qual são não menos que descrições rápidas de acontecimentos, cenas, etc (João, logo de manhã, entrou no caso e rumou para o trabalho, o mais rápido que pôde, em vez de descrever todos os detalhes do carro, o ligar do motor, o caminho, etc), e também em contos (cognato legal), onde a narrativa é mais rápida e menos detalhada. Nos contos do Lovecraft, por exemplo, os diálogos são todos contados, na própria narrativa, do tipo: Ao fim da tarde, pude encontrar Brigite. Tivemos uma longa conversa, mais de amigos que de amantes. Me disse que se mudaria para uma cidade do Sul em poucos dias, e que também ganhara um cachorro chamado Felix, perguntando-me se eu saberia de alguém que gostasse de animais, porquanto ela não poderia leva-lo consigo.

Der Bücherwurm - O Rato de Biblioteca:

Algumas últimas dicas para MOSTRAR

   Meus três evites:

1 – Evite o verbo estar\ser, use outro verbo. “João estava sentado à beira da árvore, lendo um livro”, ficaria melhor como “João, sentado à beira da árvore, lia um livro” ou “João, à beira da árvore, lia um livro” (quanto mais cortes melhor)
2 – Evite o verbo haver, use outro verbo. “Havia uma luz forte” fica melhor como “Uma luz resplandecia em pontículos borrados no ar, a ponto de cegar-me”.
3 – Evite verbos de pensamento, que expressão emoções, ou opiniões. “Cristina era apaixonada por Eduardo”, ficaria melhor assim: “Quando Eduardo se aproximou do grupo de amigos, Cristina corou, mordeu os lábios e enrolou os cabelos nos dedos, evitando qualquer tipo de contato visual, por mais que o garoto nem sequer dava-se o trabalho de fita-la”.


Conclusão

   Como disse, não se trata de uma regra, mas de um conselho (embora eu realmente repudie o verbo estar). Lembre-se que existem outras técnicas que, quando aplicadas, contam e não mostram, então, use com moderação, adeque ao seu estilo e busque sempre a perfeição.


Bons textos. 

ESPALHA PROZAMIGO:

QUEM ESCREVEU:
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